Uma omelete na madrugada

É madrugada. As ruas estão em silêncio e os garotos tagarelam na salar de estar. As venezianas da janela da sala estão entreabertas e a luz amarelada dos postes ilumina os dois irmãos. Os assuntos são diversos e, por vezes, intendem a alcançar patamares filosóficos, morais e científicos. A conversa é franca e legítima. O medo do fim, a incerteza do futuro, mas, sobretudo, a esperança do homem em caminhar e, quem sabe, encontrar a si mesmo e, dessa forma, seu lugar no mundo. Ainda que esse caminhar seja simbólico, pois um deles vive numa cadeira de rodas, há ainda um futuro a construir. Os avanços científicos reservam grandes surpresas, talvez uma cura.

A conversa passa para assuntos mais amenos, percepções sobre a família, tarefas a realizar para a melhoria de todos, ironias do cotidiano etc. E então, um deles resolve perguntar sobre uma questão prática.

“Vamos comer uma omelete?” Convida o irmão mais velho, que já aprendera a cozinhar.
“Vamos!” O outro concorda, não por ter fome, mas porque deseja que esse momento dure por mais tempo.

Saboreiam o prato, em silêncio. Os irmãos se entreolham. São cúmplices no lidar com os desígnios daquilo que foge a seus controles. Mas, afinal, há realmente controle? O cheiro da comida não custa a se esvair e, com a fome satisfeita, logo vem o sono. Adormecem, um sentado numa poltrona e o outro, não tão bem acomodado, na cadeira de rodas. Uma hora depois, a mãe acorda e chega na sala.

“Bruno! Não prefere dormir mais confortável em seu quarto?” Indaga num tom maternal.
“Que horas são, mãe?”
“Quatro horas. Também pretendo voltar para cama. Deixa que eu levo os pratos para a cozinha.”

O filho levanta, toca o assento da cadeira de rodas vazia. E sussurra:
“Obrigado, irmão!”

Antonio M. A. Menezes.