Manuelito

Emmanuel Cook era um inspetor contábil da sede, em Denver. Todos sabiam que ele viera investigar algumas suspeitas de irregularidades na filial, em Monterrey. A investigação em si era algo comum e frequente, mas desta vez, após um dia de reuniões com os mandachuvas, vazou a notícia do possível fechamento da filial. De acordo com os boatos, havia problemas irremediáveis. No fim da tarde, convidaram o Sr. Cook para uma confraternização. Todos os funcionários foram também encorajados a comparecer. Seria, quem sabe, uma festa de despedida para todos.

O local do evento era um restaurante requintado, com um palco onde alguns gerentes eloquentes resumiram os feitos daquela organização. Em seguida, uma apresentação de comediantes para entorpecer a todos os subordinados, que já sofriam de véspera com os boatos. Numa mesa, bem próxima ao palco, estava o Sr. Cook junto a algumas pessoas de nome naquela empresa. No decorrer do show, após algumas bebidas, sussurraram para o visitante.

“Sr. Cook, está se divertindo?”

“Sim, o evento está sendo bem agradável. Algumas piadas sobre americanos chamaram minha atenção, mas não me senti desrespeitado.”

“Que bom. Esperamos que desfrute o momento. Apesar de que… eu preferiria um ambiente mais caliente.”

“Hum. Como assim?”

“Costumamos ir a um bar chamado La Bodeguita. Se quiser, pode nos acompanhar, mais tarde.”

O inspetor, um solteirão de meia idade, acostumado vez ou outra a se entregar a amigas desconhecidas, aceitou o convite. Em sua mente, já imaginava as curvas das latinas, muita tequila e música animada. Terminado o evento corporativo, entrou num carro da empresa junto com quatro colegas. Ao todo, foram dois carros em direção ao bar.

Confirmadas as expectativas, o local era animado. Música típica, muita bebida e mulheres a servi-los. Um deles resolveu explicar algo da cultura mexicana, ao perceber que o americano poderia estranhar a decoração do lugar.

“Sr. Cook, todos esses bonecos e marionetes de esqueletos e caveiras nas paredes, são parte de nossos costumes.”

“Sim, eu já conhecia, só me impressionou a quantidade e a aparência grotesca deles.”

O diálogo foi interrompido por uma morena que lhes trouxe mais bebida e perguntou o nome do gringo. O colega o apresentou à mulher. Ela, então, se debruçou sobre Emmanuel Cook, a mostrar seu par de seios fartos e o chamou de Manuelito. Em seguida o convidou para uma dança, prontamente aceita pelo americano. Afastaram-se os dois da mesa, ela com andar sensual e ele já tropeçando pelo caminho, certamente efeito da embriaguez.

Começaram a dançar, estava louco por ela, mas essa empolgação logo foi substituída pelo espanto em perceber que os olhos daqueles bonecos pareciam os acompanhar. Com o ritmo agitado, começaram a girar. Ele perdeu o equilíbrio e a última coisa que conseguiu distinguir foi a voz da mexicana.

Mi querido, Manuelito. Quiero tu corazón.”

Na manhã seguinte, levantou-se meio desorientado. De qualquer forma, teve de se apressar para a reunião marcada com todos os funcionários. Antes, porém, se certificou de ligar para Denver. Sem muito pensar, acabou transmitindo um relato que o deixou confuso. Omitira as irregularidades que havia comprovado. Depois, não teve apetite para o café da manhã. Pensativo, seguiu para o auditório da filial.

“Primeiramente, gostaria de agradecer a todos, por terem sido tão amáveis.” O que era aquilo? Não era assim que costumava agradecer. Não estava entre amigos.

As ideias apareciam confusas. Sua mente queria falar algo, mas cada palavra formava frases inesperadas. “Certamente, ainda algum efeito da tequila.” Tentava explicar a si mesmo.

“Concluída a inspeção, constatei que tudo está de acordo com os princípios de nossa empresa. Desta forma, já relatei à sede que não há irregularidades aqui.”

Por que dissera isso? Havia encontrado provas de roubos e de outras atividades ilegais. Ao tentar se corrigir, esboçou um sorriso falso e falou para continuarem com o ótimo trabalho. Sem mais o que fazer, apressou-se em terminar o discurso, despediu-se e solicitou um táxi. Foi diretamente para o aeroporto.

Parecia que estava num pesadelo, onde não conseguia ter controle de suas ações. Aquela viagem o fizera muito mal. Quando voltasse, iria ficar tudo bem, desmentiria seu relatório, diria que fora pressionado e que tivera receio de estar em perigo. Sim, era isso. Já se sentia mais calmo. Deixou-se escorregar no confortável banco de trás daquele táxi. Adormeceu.

Acordou, ainda deitado no banco de um automóvel em movimento, mas agora um carro velho. A luz de fora o ofuscava. Parecia que o tempo estava escaldante. No entanto, sentia um frio desesperador. Levantou-se um pouco, com muita dificuldade e enxergou, no banco da frente, um homem a dirigir, um adolescente e uma menina, de aproximadamente 10 anos. Todos os três, descendentes de índios. O motorista nada falava, apenas o observava pelo espelho retrovisor. As crianças também caladas, não olhavam para trás.

Com mais esforço, conseguiu movimentar os braços. Sentiu-se estranho. Levou as mãos ao tórax e pareceu tocar em algo que não o pertencia. Desabotoou a camisa e tateou uma costura em seu peito, pontos grosseiramente espaçados e palha a sair pelos orifícios. O carro parou subitamente, o motorista abriu a porta e o arrancou para fora. O sol feriu seus olhos e se sentiu a cair. Foi despejado numa cova. Não conseguia se levantar nem gritar, teve de fechar os olhos para se proteger da areia. Em desespero, pediu a Deus que o ajudasse. Por fim, perdeu as forças.

Um tempo depois que não pode estimar, percebeu claridade. Seus olhos ainda estavam grudados, de tanto que os havia fechado. Sentiu-se leve. Alguém o carregava. Deus o havia socorrido? Mas o coração estava em sobressalto. Estaria vivo? Lentamente, conseguiu abrir os olhos. Recobrou a visão e descobriu que estava novamente no bar. Não havia pessoas, apenas penumbra. Percebeu que observava o lugar do alto. Era um daqueles bonecos na parede.

Antonio M. A. Menezes.

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