Vigília

Pai e filha se observam. Ele se encolhe na cama. A dor o mantém refém de seus caprichos; só o deixa em paz, momentaneamente, quando presenteada por uma boa dose de morfina. Ela, filha única, acaba de voltar dos estudos no exterior. A distância entre eles é algo mais que mera prioridade aos estudos. Sempre foi uma escolha consciente dele para afastá-la de algo que deseja revelar agora.

“Filha, lembra do homem do apito? Aquele que você tinha medo, quando pequena?”

“Claro, pai.” Ela lembra do vigia a percorrer as ruas ao redor de casa, à noite. Para afastar o medo, o pai dizia que ele recolhia os animais perdidos e devolvia aos donos.

“Nunca gostei daquele som. Mas só dormia depois de ouvir, assim sabia que ele estava longe. Por que pensou nisso, pai?”

“Bem, numa noite, tive que estacionar fora, na nossa rua, e ele veio pedir dinheiro, a cobrar pelo serviço. Tivemos uma discussão acalorada. Acabei dando um soco nele. A desgraça foi que ele caiu e bateu com a cabeça no meio-fio. E eu, como um covarde, o deixei lá. Ele morreu.”

“Mas, quando foi isso? Eu ouvi os apitos até antes de sair de casa. Não deve ter ocorrido nada, pai.”

“Eu verifiquei. Está morto mesmo.”

“Por conta disso, quero pedir um favor. Preciso que você envie uma carta e que faça um depósito para a família dele, em meu nome. A carta, o dinheiro e as informações estão numa caixa, na última gaveta da cômoda do meu quarto.”

“Tá bom, pai. Farei isso, mas não pense em partir. Vai vencer essa luta.”

“Minha menina, não guarde essa história em seu coração. Só tenho a você, por isso que contei. Espero que Deus me perdoe e me permita encontrar sua mãe, lá no céu.”

“Pai, foi um acidente. Vou buscar um copo d’água. Vai ajudar.”

“Obrigado, minha filha.”

Ao retornar, percebe que ele foi embora. Ficaram apenas o seu corpo inerte e o lençol da cama afastado. Ela olha para o lado, furiosa e fala.

“Agora, nos deixe em paz.”

Antonio M. A. Menezes.