Caxangá

alaudeA tarde caía dourada. As folhas ressecadas cumpriam seu papel, pousavam humildemente sobre a terra do jardim. Seriam o adubo para as próximas gerações. De modo distinto, Eleonora, a dona do jardim, não pretendia seguir o destino natural das coisas. Fugira do próprio entardecer até que começou a esquecer a xícara de chá de hortelã sobre o mármore da pia do banheiro. Há bem pouco tempo, ainda recorria a variados cosméticos, unguentos e sortilégios. Dessa forma, mantivera a aparência jovial durante décadas. Porém, enquanto a pele de pêssego se mantinha firme e macia, a polpa começava a apodrecer. Sua saúde mental estava em declínio acelerado. Decidiu, então, deixar de lado os extremados cuidados com a beleza exterior e passou a dar mais atenção à mente.

Comprou livros, palavras cruzadas e desenhos para colorir. Diversificou o gosto musical e voltou a tocar seu velho alaúde. Experimentou escovar os dentes com a outra mão. Cozinhou diferentes comidas, provou pratos e aromas distintos. E, acima de tudo, parou de tomar aquele bálsamo da beleza duradoura. Conseguiu, assim, estancar a demência vertiginosa, mas os anos vieram, enfim, ao seu rosto. Em poucas semanas, aparentava uma senhora septuagenária, não aquelas de feições modernas, sempre a se esticar numa academia ou numa mesa cirúrgica, mas as que exibiam rugas como um álbum de fotografias. Na verdade, ela ainda estava em vantagem, caso soubessem sua idade verdadeira. Chegou mesmo a pensar em ser menos ambiciosa, porém, assim como um rico que não aceita de bom grado uma nova vida miserável, ela se remoía quando encontrava o espelho. Tinha que haver um jeito. Foi então que recorreu a lembranças bem antigas, ainda muito bem preservadas, mesmo com o decair da memória. Surgiu-lhe a visão daquele livro de cantigas de roda da avó. Ela a informara que havia sido proibida de manuseá-lo. Uma vez, Eleonora chegou a folheá-lo, vira algo que pensava ser impossível. Outra vez pensou em usá-lo, mas temeu perder seu corpo, ainda tão belo. Naquele momento, porém, não tinha mais o que perder. O livro estava ainda no sótão, desde que se mudara para aquela casa, na época em que Lincoln foi assassinado. Sem pestanejar, seguiu em direção à porta do sótão. O relógio da sala tocou dez horas da manhã. Lembrou que precisava fazer o almoço e esqueceu o que vinha a seguir.

Ela era uma mulher elegante, bem vestida, parecia sempre pronta para sair de casa. Ainda assim, estava ultrapassada, vestia-se ao estilo anos quarenta. O pior mesmo é que seus pequenos esquecimentos começavam a interferir na forma dela se vestir. Ultimamente, aparentava desleixada. Não conseguia combinar luvas, calçados, adereços e, por fim, já esquecia de vestir a roupa íntima. A situação ficou ainda mais grave quando passou a perder o controle da bexiga. Sendo assim, com sua recém inaptidão e envelhecimento rápido, decidiu se tornar reclusa até que recuperasse sua dignidade, como dizia. Admitiu também que seria hora de contratar uma auxiliar de enfermagem. Era arriscado viver sozinha naquelas condições. Enquanto elaborava a ideia de uma companhia, lembrou de algo sobre o livro no sótão e sobre uma bela moça, mas não conseguia juntar as duas coisas. Por sorte, viu um recado deixado para si mesma, na porta da geladeira:

“Passa tempo, tic-tac, tic-tac, passa hora. Chega logo, tic-tac, tic-tac, vai-te-embora…”

Seus olhos se iluminaram. Retirou o papel da geladeira e o reteve em suas mãos. Instantaneamente, seguiu ao sótão. E, após algumas idas e vindas, a esquecer e a retomar o caminho, sempre a reler o papel, conseguiu cumprir o caminho. Voltou de lá com o livro pesado e empoeirado nas mãos. Ainda que tivesse perdido aquele papel da geladeira, teria se deparado com outros recados espalhados pela casa, que tinham o mesmo objetivo. Elas os escrevera, num momento de lucidez, quando estava com o plano completo em sua memória. Os papéis continham a letra da mesma música, uma fórmula mágica. Ela sempre dissera que para se conseguir uma escrita fascinante não era necessário se ater tanto à forma, ao latim e às palavras rebuscadas. Aprendera que mesmo com antigas canções de criança, era possível guardar e transmitir a magia. Além disso, usar tais cantigas inocentes era uma ótima maneira de evitar suspeitas e, assim, se proteger da fogueira. Naquele momento, abriu o velho livro sobre a mesa de jantar. Folheou cuidadosamente as páginas e encontrou uma estranha canção, mas esta estava ligeiramente diferente do que lembrava. Deduziu que, ao longo de vários anos, tivessem trocado algumas palavras para o encanto não acontecer acidentalmente. A página estava marcada com uma meia folha de papel dobrada e já amarelada. Eram anotações da vovó. Dizia como se concentrar em cada parte da canção e quais ervas a queimar, durante o processo. Estudou o livro, as anotações e constatou que tinha todos os ingredientes. Faltava apenas a moça para recitar a canção.

Passaram-se alguns meses, a velhice recuperou o terreno e se estabeleceu de vez naquela senhora. E, para dificultar seus planos, cada assistente de enfermagem contratada durava pouco mais que quinze dias. Sempre havia algo que incomodova Eleonora. Quando gostava do cabelo, desgostava das proporções do corpo da moça. Quando apreciava o formato da boca, se incomodava com o volume das bochechas. E teria sido assim até sua vida se extinguir, caso Liza não tivesse aparecido. A moça estava no frescor dos seus vinte anos. Ruiva, esbelta, contornos suaves, que cairiam bem em qualquer vestido, de qualquer época. Não era voluptuosa a ponto de causar furor entre os grosseirões, mas delicada o suficiente para causar a inveja das outras mulheres.

“Bom dia, Liza. Como vai?”

“Bom dia, Senhora Eleonora. Desculpe meu atraso.”

“Não tem porque se desculpar. O importante é que chegou ainda a tempo.” A senhora fez sinal para que ela a acompanhasse à sala de jantar.

“A Senhora foi informada dos meus horários? É porque estou na faculdade e precisarei me ausentar às dezoito horas.”

“Não se preocupe, querida. E, por favor, me chame apenas de Eleonora.”

“Sim, Eleonora. Por onde posso começar?”

“Ah, venha aqui, mais perto. Você me lembra muito a minha sobrinha. Ontem mesmo, ela me visitou e deixou uma canção, escrita nesse papel.”

“Mas perdi meus óculos. E essas crianças escrevem com letrinhas tão pequenas. Poderia ler para mim?”

“Claro.”

Liza se aproximou da velha, que se encontrava junto à mesa de jantar. Eleonora estendeu a mão e a alcançou o pedaço de papel encardido. Ela começou a ler em voz alta.

“Escravos de Jó jogavam caxangá. Tira, bota, deixa o Zambelê ficar…”

No entanto, naquele momento, sentiu algo molhado em seus pés. Olhou para o chão e percebeu que Dona Eleonora havia se urinado toda.

“Desculpe, senhora. Mas posso ajudá-la com sua higiene?”

Ao perceber o que fizera, Eleonora se entristeceu e esqueceu do papel entregue. A moça o guardou no bolso, de forma automática. Em seguida, decidiu oferecê-la um banho. A senhora assentiu com ternura, ao perceber o cuidado da moça com ela. Após o banho, ao notar a senhora relaxada, a deixou deitada em sua cama. Antes de sair, pretendia oferecer uma sopa para ela. Foi à sala de jantar, limpou o chão, procurou por vegetais e temperos na cozinha e retornou à sala anterior. Ao perceber que a velha estava dormindo, resolveu bisbilhotar no livro, ainda sobre a mesa. Virou as páginas com extremo cuidado. Parecia familiarizada com aquele conteúdo. Quando levantou os olhos, se assustou com a velha a observá-la, à distância.

“O que você procura, minha criança?” Aproximou-se da moça.

“Ah, me desculpe. Queria fazer uma sopa para a senhora e resolvi procurar aqui por uma receita.” Respondeu sem pensar.

“Mas, querida, como você sabia que esse era um livro de receitas. Ele é tão velho e não tem jeito de livro de receitas.”

“É mesmo, senhora. Que tolice a minha.”

Liza, ao perceber que a velha continuava a desconfiar de suas intenções. Pensou em dar um fim àquela mulher, mas ainda precisava dela para encontrar a receita do bálsamo da beleza duradoura. Sabia que Eleonora tinha deixado de usar a poção, pois não conseguira equilibrar os ingredientes e evitar efeitos colaterais, como a demência. A jovem sabia como fazer isso, tinha roubado receitas de outras velhas bruxas. Decidiu, então, a fingir e procurar pela receita, numa outra ocasião. Passaram alguns dias, e nada de Liza encontrar o feitiço. A velha, vez ou outra, perguntava a moça sobre o papel com a canção da sobrinha. Cansada de cuidar de Eleonora e de ser surpreendida por ela em suas buscas pela casa, Liza resolveu ameaçar a mulher.

“Sua bruxa imprestável. Tudo que eu quero é aquele feitiço de beleza duradoura. Me entregue e a deixarei viver. Ou melhor, com os poucos anos ou, quem sabe, meses que lhe restam.”

“Menina, você acha que se eu tivesse esse feitiço estaria assim?”

“Não me engane, você é velha e incompetente. Eu sei como equilibrar esse feitiço e não ficar assim, decadente como você!”

A velha olhou para baixo, pareceu desiludida e entregou um feitiço, escrito num papel pardo. Ainda assim, havia uma esperança. Só precisava deixá-la ir e não esquecer de seus próximos passos. Liza saiu, bateu a porta com força e deixou uma risada característica. Eleonora, antes de esquecer dos últimos minutos, leu mais uma vez a canção do “tic-tac”. Trouxe algumas folhas de papel, se sentou à mesa e passou a escrever o mais depressa que pode.

Um tempo depois, a alguns quilômetros dali, Liza se sentou numa poltrona de uma livraria. Tinha um livro em mãos e havia pedido um café, também oferecido por lá. Tirou do bolso o feitiço roubado da velha e o leu:

“Escravos de Jó jogavam caxangá. Tira, bota, deixa o Zambelê ficar.

Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá.

Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá.”

“Velha maldita, me enganou com essa cantiga idiota.” Pensou. Mais tarde, de madrugada, voltou à casa de Eleonora e a sufocou com o travesseiro, enquanto a velha dormia. Decidiu ficar ali mesmo, na residência. Uma semana depois recebeu a visita de um advogado de Eleonora. Comentou que na semana passada, a senhora havia o telefonado. Dissera que havia encaminhado a ele seu testamento por meio de um serviço de entrega. Temia não viver por muito tempo, confessou que tinha uma doença de envelhecimento precoce. Depois, ele mesmo pode verificar isso em seu velório. Quase não a reconhecera. Por fim, disse estar ali para comunicar que a senhorita Liza era a única herdeira de Eleonora. A moça se mostrou surpresa e confessou ao advogado que ainda estava muito triste com a morte da amiga. Tentava se conformar ao pensar que, pelo menos, o sofrimento dela não tinha sido tão prolongado. Despediu-se do homem e foi até a sala de estar. Abaixou-se diante de um baú, num canto. Retirou deste um antigo alaúde e o tocou com maestria.

Antonio M. A. Menezes.