Archive for agosto, 2016


#2016.2-14

Data estelar 2516.214, a USS Sagan está em rota de aproximação a um sistema desconhecido. Os mapas apontam que no lugar daquela estrela, deveria existir um buraco negro. O capitão decide investigar o porquê da imprecisão de seus registros. Aproximam-se do planeta mais externo do sistema. Apenas alguns segundos depois, enquanto observam a estrela, a mesma é cercada por um aro negro que, como um ralo sujo, a engole e arrasta tudo o que se encontra nas redondezas, incluindo a espaçonave.

Renan acorda desnorteado de um breve cochilo. Um calhamaço de formulários está à sua frente. Minutos depois, ainda a se recuperar do pesadelo, percebe a aproximação de um senhor calvo, de óculos graúdos, rosto vermelho e olhar sentenciador. Quer saber da investigação do bug #2016.2-14. Assustado, Renan responde que está analisando o tal bug, naquele exato momento. Assim, consegue mais algum tempo sozinho.

A solidão tranquilizadora é curta, por conta de seu smartphone. Ele emite o som característico de um dispositivo comunicador de uma séria de ficção científica bem conhecida. Renan o atende e ouve alguém a lhe chamar pelo nome e a oferecer um novo plano de dados. Quando está prestes a se livrar do telefonema, parece ouvir o atendente a dizer algo sobre sua missão naquele sistema.

“O que você disse?”

“Falei que o sistema, apesar de aparentemente complexo, é muito simples.”

“Sim. E além disso, o que você falou?”

“Que o senhor é muito importante para nós. A nossa missão depende completamente do senhor…”

“Como assim?”

“Bom, nosso sistema de bonificação promove descontos progressivos em suas faturas de telefone. Para isso, basta…”

Renan desliga, sumariamente. Parece que faz parte mesmo daquela dimensão, onde sua tarefa prioritária é, simplesmente, preencher relatórios de bugs. Contudo, suas imagens mentais surgem a prometer o contrário, lembranças de uma realidade onde ele é um engenheiro treinado de uma Federação Galática. É esperado, no mínimo, que aja como um herói a resgatar outros possíveis sobreviventes e que encontre o caminho de volta à espaçonave. Precisa se libertar daquela ilusão, daquele cotidiano típico de um escritório qualquer e fugir daquela vida, sentenciado a tarefas recursivas e insignificantes.

“Oi! Viu o episódio de ontem?” Surge uma mensagem no computador à sua frente, encaminhada por um tal de Scotty.

“Scotty? É o seu nome real?”

“Sim, e o teu? Chekov? Cara, vc não tem ideia do que perdeu!”

“O que?”

“Os caras foram engolidos por um buraco negro! Foi mal, sem mais spoilers. Não deixa de ver o episódio!”

Renan fica atordoado. E se tudo não passa de um delírio? Estaria com problemas, qualquer que fosse a verdade. Ele toma coragem, abandona a inércia. O corpo, antes afundado em sua cadeira que parece o conhecer há muito tempo, ergue-se e contempla a planície, além das divisórias de mesa, ao seu redor. À distância, inúmeras mesas dispostas no horizonte, por todo o escritório. Pessoas separadas em seus espaços individuais, outras em pé, agrupadas em torno de superfícies, barreiras a separá-las do sentido de suas vidas. Dispõem-se em adoração diante de quadros, murais, telas com gráficos estatísticos em tempo real, curvas normais a comprovar que sim, tudo segue a mais completa normalidade. Ele, no entanto, prefere uma vida mais cheia de significado. Abaixa-se novamente, perplexo. Admira as fotos de seus filhos, da esposa e os desenhos infantis, afixados em outra divisória logo atrás dele. Eles também são parte do sentido de sua vida. Mas como é possível agora, se ele os havia deixado no planeta natal? Aquela dimensão, sem dúvida, é uma prisão que poderia se acostumar, um simulacro consistente de sua vida, em seu planeta, numa outra época. Por que procurar por falhas daquela simulação no intuito de descobrir a verdade? Correrá o risco de encontrar apenas mais algo coerente a seu respeito. Sua mente está ali, à disposição de quem criou aquela ilusão. Até as recordações de sua outra vida foram bem aproveitadas, para parecer com sonhos de alguém perturbado, frágil. São fantasias, decorrentes de sua fixação em seriados de ficção científica. Aquilo tudo o inquietava e o confundia. Decide, enfim, seguir naquele jogo e ver no que dá.

Dois anos depois, já acostumado à nova realidade, desfruta de sua família. Os meninos seguem bem no colégio e a esposa promovida, recentemente. Trocaram de carro, dias atrás. O dinheiro, como sempre, na medida, com pouca sobra, mas com todas as despesas em dia. A mulher o encoraja a um curso de aperfeiçoamento. E ele tem aprendido a controlar suas fantasias, faz um ano que ingressou no grupo dos aficionados anônimos. Será homenageado na próxima reunião.

“Amigos, hoje é um dia especial. Temos dois membros que completam aniversários em nossa família. Por favor, levantem-se!” Fala em voz alta o orientador do grupo. Seguem-se as palmas dos demais participantes.

“Vamos deixá-los falar, pessoal! Alberto, são cinco anos, né?” O orientador dirigiu a palavra ao mais antigo membro.

“Sim, Regis. Lembro-me como se fosse ontem, eu entrando por aquela porta. Só sabia falar de ‘Jogo de Tramas’. Minha família e meus amigos não me aguentavam mais. Depois de perceber que não estava sozinho, que havia outros com os mesmos problemas, senti que tinha vindo ao lugar certo. Hoje são cinco anos sem fantasias, só o mundo real!”

“Alberto! Alberto! Alberto!” O grupo gritava em uníssono.

“E temos também o nosso amigo Renan! Está completando o primeiro ano! O que me diz, Renan?”

“Bom, pessoal. Eu pensei que não conseguiria me reintegrar. Meu problema era com ficção científica. Cheguei ao ponto de ser fluente em klingon. Mas agora, estou conseguindo largar tudo e quase não tenho mais visões.”

“Não desista, amigo! Você sabe que pode contar conosco!”

“Renan! Renan! Renan!” O grupo se agitou em gritos e assovios.

No outro dia, no trabalho, Renan recebe mais uma visita de seu supervisor, aquele de óculos grandes e rosto vermelho. O famigerado bug #2016.2-14 tinha voltado, agora rebatizado com outro código. Ninguém sabia como ele havia escapado. Renan sente-se mal. Teme ter sido relapso e deixado passar aquele problema, na época dos seus intensos devaneios. No entanto, enquanto se apressava para retificar a antiga falta, é notificado pelo smartphone. Todos o aguardam para uma reunião com o cliente.

“Boa tarde. Desculpem, estava concentrado em um bug…” Renan adentrou na sala e se sentou à mesa, a esboçar um ar de surpresa.

“Nós sabemos. Este é um dos assuntos dessa reunião. Creio que ainda não conhece o Sr. Jaime, consultor do cliente.” Retrucou a coordenadora geral, sentada ao lado do consultor, um senhor por volta dos quarenta anos, o cabelo arrumado a esconder uma entrada evidente e um topete a ressaltar os fios louros.

“Boa tarde, Sr. Renan. Desejo que juntos encontremos uma solução o mais breve possível. Estou aqui para ajudar.” Jaime estendeu a mão para cumprimentar Renan. Percebeu que o funcionário ainda tinha o rosto congelado e pálido, como a contemplar um fantasma.

“Claro, James, digo Jaime. Podem contar comigo.” Enfim, Renan saiu da paralisia e apertou a mão do consultor, a esboçar uma ligeira satisfação, como se já se conhecessem ou compartilhassem um segredo.

“Bem, acho que podemos começar pelo bug, depois seguimos para os novos requisitos do cliente.” A coordenadora dirigiu-se a todos os participantes, incluindo um analista de negócio, dois programadores, Renan, o consultor e o chefe de Renan. Todos assentiram.

“De alguma forma, não conseguimos corrigir esse bug detectado em nossos testes preliminares e ele acabou sendo implantado no sistema do cliente. No início desse mês, ao executarem as novas rotinas, se depararam com o problema.” O chefe de Renan comenta e o olha, tentando esconder um ar de reprovação.

“É prioritário que o eliminemos porque ele pode vir, digamos assim, a contaminar o resto do sistema. Correto?” A coordenadora retoma a conversação, como se possuísse conhecimentos técnicos suficientes. Olha para os programadores a sugerir que expliquem seu argumento.

“Com certeza. Já evitamos a degradação de todo um subsistema ao remover um simples bug. Mas para isso, precisamos que a equipe de rastreio e relatório de bugs seja capaz de nos fornecer as informações adequadas e a tempo.” Respondeu um dos programadores.

“Não há mais o que discutir. Vou priorizar para que o Renan dedique completa atenção a este problema. Podemos liberá-lo da reunião?” Indagou o chefe.

“Claro. Alguma pergunta a mais para o Renan?” A coordenadora acrescentou.

“Só mais uma coisa. Renan, quero que me mantenha informado e entre em contato assim que estiver prestes a concluir sua tarefa. Quero acompanhar de perto todo o processo. Tudo bem?” O consultor fez o pedido a olhar para todos, certificando-se de não violar alguma regra da cadeia de comando. Entregou seu cartão à Renan.

O funcionário sai da sala e se detém a examinar o cartão com uma aparência moderna. O nome “Jaime Tibério Kirlian, Consultor” escrito em relevo. Na parte de trás, um código QR e a frase “leia-me agora”. Ele toma o smartphone e faz a leitura do código. É direcionado a uma página na Internet e aparece aquele logotipo tão bem conhecido por ele, o da Federação Galática. Há ainda uma mensagem: “Tenente, você não está sozinho. Estamos prestes a nos livrar dessa simulação. Permaneça no escritório até mais tarde, quando todos forem embora e aguarde por minha ligação. Importante: não conclua a tarefa antes do meu contato.” Bem abaixo, na página, um complemento: “Se estiver em dúvida sobre o que é real, antes que a reunião termine, verifique na última gaveta da mesa da sua coordenadora. Ela é uma típica reptiliana.”

Renan vai ofegante até a sala da coordenadora. Olha para todos os lados, ninguém o vê. Abre a gaveta indicada e encontra uma maleta prateada, com alguns furos destinados a arejar o seu interior. Dentro dela, encontra camundongos vivos, o lanche predileto dos reptilianos. Trata de fechar a maleta, devolvê-la à gaveta e sai furtivamente da sala. De volta à sua mesa, o funcionário esforça-se em esconder a euforia, assim que o chefe se aproxima a perguntar como está indo o trabalho. Responde que está tudo sob controle. Enfim, sente-se revigorado. Nunca fora louco, tudo volta a fazer sentido. Prepara os relatórios e as anotações com cuidado extremado. Avisa a esposa que precisará ficar até mais tarde. Quando é o único no escritório, recebe, em seu próprio smartphone, o telefonema de Jaime.

“Tenente?” A voz de Jaime do outro lado.

“Sim, Capitão!”

“Precisamos agir rápido. Esse bug não deverá ser corrigido. É através dessa brecha que conseguiremos fugir daqui.”

“O que eu faço?”

“Vou orientar tudo o que precisará ser feito. Muita atenção. A ideia é fazê-los modificar outros componentes do sistema e despistá-los do bug.”

“Está certo. Por onde começamos?”

Renan segue as instruções e, ao final de duas horas, tudo está pronto. Encaminha uma mensagem ao chefe para relatar o sucesso do trabalho e resolve abandonar o escritório, seguindo em direção ao elevador de serviço, conforme a orientação de Jaime. A medida que percorre o caminho no escuro, algumas luzes são acionadas automaticamente. Elas o guiam, mas o abandonam ao se aproximar do elevador. Ele busca os botões de acionamento do mesmo e se assusta com o vazio, a porta aberta em direção à escuridão. Sente alguém a empurrá-lo. Cai no vazio, no espaço, sem estrelas, com a esperança de um teletransporte que o salve.

Um mês depois, dois analistas se divertem com memes sobre colegas de trabalho numa rede social. De início, não reconhecem a foto do funcionário, trabalhada de maneira a esticar suas orelhas e a pintá-lo de verde. Era a foto daquele responsável por esconder uma rotina maliciosa e a desviar milhões das contas dos clientes. A empresa quase faliu e ainda responde a vários processos, afetando assim sua saúde financeira e não mais propiciando todos aqueles benefícios a seus empregados. Muitos, inclusive, não concordam com a pensão destinada à esposa de Renan. O consultor Jaime, obstinadamente procurado pela polícia de alguns países, desapareceu sem deixar rastros. Parece até que viajou para uma outra dimensão.

Antonio M. A. Menezes.